Durante décadas, a TV aberta e a CTV operaram em mundos separados. Uma transmitia para todos, ao mesmo tempo, sem saber quem estava do outro lado. A outra rastreava, personalizava e convertia, mas dependia de internet e de uma audiência disposta a pagar ou a aceitar anúncios em streaming. Essa separação está acabando. A TV 3.0, oficialmente chamada de DTV+, não é uma simples atualização de sinal. É a fusão dos dois mundos dentro de um único aparelho, dentro de uma única sessão de consumo.

O que é a TV 3.0, sem o jargão técnico

A TV 3.0 combina o broadcast, o sinal aberto que chega pela antena, com o broadband, a conexão de internet. Na prática, isso significa que a TV aberta deixa de ser um canal linear e passa a funcionar como um aplicativo. Cada emissora terá seu próprio app no catálogo da DTV+, com conteúdo ao vivo, sob demanda e interativo, tudo na mesma interface.

O decreto que regulamenta o novo padrão foi assinado em agosto de 2025. Portanto, as primeiras transmissões comerciais estão previstas para o primeiro semestre de 2026, com foco inicial em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. O processo de expansão para todo o território nacional, por sua vez, pode levar até 15 anos.

Para quem está no mercado de mídia, varejo ou tecnologia, contudo, o que importa não é a resolução de imagem em 8K nem o áudio imersivo. O que importa é o modelo de negócio que essa fusão torna possível.

CTV e TV aberta: duas lógicas que finalmente se encontram

A CTV sempre teve um problema de escala no Brasil. Ela alcança quem tem internet de qualidade, smart TV e disposição para navegar entre plataformas. Esse público é valioso, mas segmentado. A TV aberta, por outro lado, alcança praticamente todo o país, mas entrega pouco controle sobre quem está do outro lado da tela.

A TV 3.0 resolve essa equação de forma estrutural. Segundo dados da pesquisa Samsung Ads, sete em cada dez usuários brasileiros de smart TV assistem à programação da TV aberta nesses aparelhos. Ou seja, a audiência da TV linear já está, em grande parte, dentro do ecossistema conectado. A TV 3.0 formaliza essa sobreposição e entrega infraestrutura para monetizá-la.

Dessa forma, o executivo que hoje precisa escolher entre o alcance da TV aberta e a mensuração da CTV não precisará mais fazer essa escolha. Os dois atributos passarão a coexistir no mesmo ambiente.

O que muda para quem anuncia

A lógica publicitária da TV aberta sempre foi baseada em CPM e CPP: custo por mil impressões e custo por ponto de audiência. Esses modelos funcionavam porque a TV não tinha como saber quem estava assistindo. Com a TV 3.0, isso muda.

A nova infraestrutura permite segmentação por perfil, localização e comportamento. Assim, dois aparelhos na mesma cidade poderão receber anúncios diferentes durante o mesmo intervalo comercial. Segundo a Propmark, os modelos de compra de mídia tendem a evoluir para formatos mais próximos aos do digital, com campanhas direcionadas por hábitos de consumo e comportamentos atitudinais, não apenas por faixa etária ou classe social.

Além disso, o telespectador poderá interagir com o anúncio diretamente pelo controle remoto: acessar mais informações, participar de enquetes ou iniciar uma jornada de compra sem sair da tela. Portanto, o anúncio deixa de ser um bloco passivo e passa a ser um ponto de entrada para uma experiência transacional.

T-Commerce: a oportunidade que a TV 3.0 reacende

O T-Commerce, comércio realizado diretamente pela tela da TV, existe como conceito há anos. No Brasil, porém, nunca teve a infraestrutura necessária para escalar. A TV 3.0 muda esse cenário de forma concreta.

Com a integração entre broadcast e broadband, o consumidor poderá comprar um produto que viu em um anúncio ou dentro do conteúdo de um programa sem precisar de QR code, sem trocar de dispositivo e sem interromper a experiência de assistir. O televisor passa a ser, de fato, um canal de vendas. Para o varejo, isso representa uma camada nova de retail media dentro do ambiente de maior atenção da casa.

É importante ressalvar que a compra pela TV depende de conectividade e de uma jornada de checkout que ainda está sendo definida pelas emissoras e pelos fabricantes. Portanto, os primeiros modelos de T-Commerce na DTV+ devem ser mais simples, com intenção de compra registrada na tela e finalização em outro canal. A sofisticação virá com a maturidade do ecossistema.

O que a TV 3.0 não resolve por si só

A TV 3.0 chega com um cronograma desafiador. O investimento estimado apenas para as 15 maiores regiões metropolitanas, segundo o Meio e Mensagem, é de R$ 3,8 bilhões. Além disso, o processo de transição pode levar entre 10 e 15 anos, com convivência entre o sinal digital atual e o novo padrão DTV+.

Isso significa que, nos próximos dois a três anos, o mercado operará em uma fase híbrida. A CTV continuará sendo o ambiente mais avançado para quem quer mensuração, personalização e performance em escala. A TV 3.0, por sua vez, chegará inicialmente como uma camada de qualidade e interatividade básica, não como um ecossistema completo de dados e monetização.

Contudo, ignorar a TV 3.0 nesse momento é um erro estratégico. As emissoras, os fabricantes e as plataformas que estiverem posicionadas desde o início terão vantagem na definição dos padrões comerciais, das interfaces e dos modelos de dados que vão estruturar esse mercado por décadas.

A posição estratégica correta para 2026

Para quem atua em mídia, varejo ou tecnologia, a chegada da TV 3.0 não exige uma ruptura imediata na estratégia. Exige, sobretudo, um mapeamento claro de onde cada ambiente se encaixa.

A CTV segue sendo o ecossistema mais maduro para campanhas de performance, retail media e mensuração de audiência qualificada. A TV 3.0, por outro lado, traz a escala da TV aberta com uma camada crescente de inteligência digital. Os dois ambientes se complementam, e as marcas que souberem operar nos dois terão presença no momento de atenção e no momento de decisão do consumidor.

A televisão brasileira está sendo reorganizada a partir da infraestrutura. Quem entende essa reorganização antes dos outros não está apenas comprando mídia. Está posicionando capital no ecossistema certo, no momento certo.

Se a TV 3.0 e a CTV já estão na sua agenda estratégica, fale com a MADMIX. Ajudamos empresas de mídia, varejo e tecnologia a entender e estruturar sua posição nesse novo ecossistema de tela.

Autor

  • Marcelo Natali é engenheiro e sócio-fundador da MADMIX, advisory especializada em monetização e estratégia para CTV, Streaming e Telecom na América Latina.Com mais de 16 anos de experiência no setor, construiu uma trajetória reconhecida na região, com passagens por empresas como Philips, Samsung, Opera TV, Metrological (Comcast) e Vewd (Xperi). Ao longo dessa jornada, atuou nas áreas de produto, vendas, marketing e pré-vendas, sempre na interseção entre tecnologia, conteúdo e receita. Hoje, pela MADMIX, ajuda operadoras, fabricantes e plataformas a transformar audiência em resultado.

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