Brazil chose ATSC 3.0 as the foundation for DTV+, its TV 3.0 standard, via a presidential decree signed in August 2025. Written by someone who was at Philips during Brazil’s first broadcast standards war, which produced the ISDB-T hybrid and the largely forgotten Ginga interactivity layer, this analysis asks a direct question: what is actually happening in countries that adopted ATSC 3.0 first? The answer is uncomfortable. The technology is sound, but ecosystem adoption is not. Anyone making strategic decisions about broadcast distribution, CTV, or advertising infrastructure in Brazil needs to understand what the standard means in practice versus what it promises on paper.

Quando o decreto da TV 3.0 no Brasil foi assinado em agosto de 2025 e o ATSC 3.0 foi oficializado como base da DTV+, lembrei imediatamente da história da TV 2.0.

Estava na Philips quando o Brasil travou sua primeira grande guerra de padrões de TV. A disputa envolvia o modelo europeu DVB, o americano e o japonês. O resultado foi um padrão híbrido criado aqui mesmo: o ISDB-T. No início, caos. Os chipsets não existiam em volume, o mercado não sabia precificar e a cadeia industrial levou anos para se organizar. Depois virou o Ginga, a camada de interatividade da TV 2.0 brasileira. Muita promessa, licenças caras de Java cobradas pela Oracle, e hoje poucos conseguem dizer se ainda funciona em algum aparelho. O Brasil tinha a intenção certa. O ecossistema, porém, não acompanhou.

Conto isso porque a primeira pergunta que fiz não foi sobre a tecnologia. Foi sobre o que está acontecendo com esse padrão nos países que o adotaram primeiro.

A resposta é desconfortável. Quem precisa tomar decisões estratégicas sobre distribuição, publicidade e ecossistema de TV aberta precisa conhecê-la.

O que é a TV 3.0 Brasil e por que o ATSC 3.0 foi escolhido

A DTV+, nome comercial da TV 3.0 Brasil, combina dois ambientes: broadcast, o sinal tradicional via antena, e broadband, a internet. Na prática, o telespectador deixa de sintonizar “canal 4” ou “canal 11” e passa a acessar um catálogo de aplicativos das emissoras, com interface semelhante à de um smartphone. A qualidade salta para 4K nativo, com suporte a HDR, áudio imersivo de até 10 canais e recursos de interatividade em tempo real, incluindo compras pelo controle remoto.

O padrão técnico adotado é o ATSC 3.0, o mesmo utilizado nos Estados Unidos e na Coreia do Sul. O Brasil, no entanto, foi além do modelo americano. Pesquisadores brasileiros criaram adaptações específicas para o DTV+: antena MIMO integrada obrigatória nos aparelhos, sistema de alerta de emergência via broadcast independente de internet e uma arquitetura de interatividade mais robusta. Em tese, o Brasil não apenas adotou o ATSC 3.0. Criou uma versão aprimorada dele.

Além disso, a Triveni Digital, uma das principais empresas de infraestrutura de broadcast do mundo, apresentou no NAB Show 2026 soluções específicas para o mercado brasileiro. Isso confirma que o ecossistema global de fornecedores está de olho na DTV+. O interesse internacional é real.

O problema: nos EUA, Samsung e LG já desistiram do ATSC 3.0

Aqui começa a pergunta que ninguém está fazendo em voz alta no Brasil.

A LG foi uma das primeiras fabricantes a incluir tuners ATSC 3.0 em seus televisores, em 2020. Ainda assim, decidiu removê-los de toda a linha 2024 após perder uma disputa judicial de patentes com a empresa Constellation Designs.

O custo de licenciamento subiu de US$ 3 para US$ 6,75 por aparelho. A variação parece pequena, mas em escala é suficiente para mudar o roadmap de produto de uma fabricante global. A LG comunicou a decisão à FCC em carta, descrevendo o cenário como “desafiador e incerto”.

A Samsung seguiu o mesmo caminho, excluindo tuners ATSC 3.0 de suas linhas de TVs OLED em 2024 e repetindo a decisão em 2025. Em fevereiro de 2026, a Cord Cutters News confirmou que a ausência se estende para os modelos 2026 da linha premium da Samsung nos EUA. O ATSC 3.0 permanece apenas nos modelos 8K topo de linha, fora do alcance do consumidor médio.

No plano regulatório americano, a situação também não avança. A FCC publicou em novembro de 2025 uma proposta que deliberadamente não define uma data de encerramento do ATSC 1.0, tampouco torna obrigatória a inclusão de tuners ATSC 3.0 nos televisores. Portanto, quase seis anos após o início da implementação nos EUA, o padrão ainda é voluntário. Sem mandato, os fabricantes não têm incentivo para adotar de forma ampla. O ciclo paralisa.

TV 3.0 Brasil: o risco da tomada de três pinos que só funciona aqui

O Brasil tem histórico de adotar padrões técnicos com lógica própria. O ISDB-T, padrão de TV digital atual, é um exemplo claro: foi importado do Japão, mas adaptado significativamente para o mercado local. O resultado foi um sistema que funciona bem internamente, porém criou uma ilha de compatibilidade dependente de um ecossistema industrial específico.

Com a DTV+, o risco é parecido, mas invertido. O Brasil adotou o ATSC 3.0 como base e, em seguida, adicionou camadas proprietárias que diferenciam o padrão local do americano. Isso cria duas questões estratégicas simultâneas.

Primeiro: os fabricantes globais que já estão recuando do ATSC 3.0 nos EUA não terão, necessariamente, incentivo para desenvolver chips e tuners compatíveis com o DTV+ brasileiro. O mercado americano é muito maior. Se lá o tuner não é obrigatório e aqui as especificações são diferentes, o investimento de P&D para atender o Brasil precisa ser justificado por outro ângulo.

Segundo: a Hisense, fabricante chinesa, já demonstrou interesse em fornecer conversores para o mercado brasileiro. Isso é positivo, mas sinaliza que a estratégia de curto prazo para TV 3.0 Brasil passa por conversores externos, com custo estimado entre R$ 300 e R$ 400, e não por aparelhos com receptor nativo.

Os testes iniciaram no começo deste ano em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Nesse sentido, a organização Seja Digital confirmou a produção e distribuição inicial de 3 mil set-top boxes de engenharia para testes da tecnologia DTV+.

Esses equipamentos, cujos chips ficaram prontos no fim de 2025, devem começar a ser distribuídos em junho de 2026 para radiodifusores, formadores de opinião e entidades governamentais. Mesmo assim, a transição para o novo sistema será lenta, devendo levar até 15 anos para se consolidar no Brasil.

A hibridização com CTV é o cenário real para os próximos anos

Nesse contexto, o modelo que realmente importa não é a TV 3.0 sozinha. É a hibridização entre DTV+ e CTV, a TV conectada via streaming.

Sete em cada dez usuários de Smart TV no Brasil ainda assistem TV aberta, segundo dados da Samsung Ads. Ao mesmo tempo, 83% do consumo de streaming no Brasil acontece em Smart TVs. Esses dois mundos já coexistem na mesma tela. Assim, a TV 3.0 Brasil, se bem executada, oferece a camada de distribuição aberta e gratuita, com alcance massivo e qualidade 4K. A CTV, por sua vez, oferece a camada de dados, personalização e monetização.

Para as emissoras, a oportunidade real está em operar os dois ambientes de forma integrada. A publicidade segmentada via DTV+, a interatividade e o T-Commerce pelo controle remoto funcionam melhor quando combinados com a infraestrutura de dados que a CTV já construiu. Como já analisamos no artigo sobre TV 3.0 e CTV como ecossistema de negócio, os dois não competem. São camadas complementares.

Por outro lado, para que essa hibridização funcione, é preciso que o receptor DTV+ chegue de fato aos lares. É aí que a dependência de um ecossistema industrial cooperativo se torna crítica. Se os grandes fabricantes globais, Samsung e LG em primeiro lugar, não tiverem incentivo claro para adotar o padrão nos modelos vendidos no Brasil, a DTV+ corre o risco de repetir o problema do ATSC 3.0 nos EUA: infraestrutura no ar, sem receptor no sofá.

O que isso significa para quem toma decisões agora

A TV 3.0 Brasil é uma aposta estratégica legítima. O decreto existe, as transmissões experimentais estão no ar, a Globo já testou em produção ao vivo e a Copa do Mundo de 2026 é o prazo mais concreto que o mercado tem. O potencial de publicidade segmentada, interatividade e integração com o ecossistema de CTV é real e documentado.

No entanto, o ritmo de adoção vai depender de três variáveis que ainda não estão resolvidas: a adesão dos fabricantes ao padrão DTV+ com receptor nativo, a escala e o custo dos conversores externos, e a disposição das marcas em investir em formatos publicitários que ainda dependem de uma base de receptores compatíveis para escalar.

Quem ignora essas variáveis e planeja como se a TV 3.0 fosse uma realidade de massa imediata vai errar o timing. Quem paralisa à espera de certeza, por outro lado, vai perder a janela de posicionamento. O equilíbrio está em construir agora a capacidade de operar em CTV e preparar a estrutura para integrar a DTV+ quando a base de receptores atingir escala.

Para entender como os quatro pilares de CTV se conectam com esse movimento, vale ler a análise completa sobre distribuição, conteúdo, marketing e monetização em CTV.

A janela está aberta. Mas não fica para sempre.

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Autor

  • Marcelo Natali é engenheiro e sócio-fundador da MADMIX, advisory especializada em monetização e estratégia para CTV, Streaming e Telecom na América Latina.Com mais de 16 anos de experiência no setor, construiu uma trajetória reconhecida na região, com passagens por empresas como Philips, Samsung, Opera TV, Metrological (Comcast) e Vewd (Xperi). Ao longo dessa jornada, atuou nas áreas de produto, vendas, marketing e pré-vendas, sempre na interseção entre tecnologia, conteúdo e receita. Hoje, pela MADMIX, ajuda operadoras, fabricantes e plataformas a transformar audiência em resultado.

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